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VIDA VÍCIO VIRTUDE
APRESENTAÇÃO


ADAUTO NOVAES


O vício não saberia conhecer a virtude e nem a si mesmo.
PLATÃO

Quem diria!
A própria virtude precisa de limites.

MONTESQUIEU

Eles admiraram coisas que quase não se admiram mais;viram, ao vivo, verdades que estão mais ou menos mortas;especularam, em suma, sobre valores cuja baixa ou a ruína é tão clara, tão manifesta e tão desastrosa para suas esperanças e crenças quanto a baixa e a ruína dos títulos e das moedas que antes eles tinham, como todo o mundo, por valores inquebrantáveis.
Eles assistiram à ruína da confiança no espírito, confiança que tinha sido o fundamento, e, de alguma maneira, o postulado de suas vidas.
Eles confiaram no espírito, mas que espírito, e que entendem por esta palavra? ...um mundo transformado pelo espírito não oferece mais ao espírito as mesmas perspectivas e as mesmas direções de antes; ele lhe impõe problemas inteiramente novos, inúmeros enigmas.

PAUL VALÉRY

Lemos em alguns teóricos e pensadores da filosofia política que vivemos um momento de mutação dos valores – momento de transformação radical daquilo que dá sentido à nossas ações e às nossas vidas. Muitos deles atribuem estas mutações à revolução tecnocientífica que produz uma “materialidade sem alma”, “um mundo sem espírito”, uma “desvalorização dos valores supremos”: tudo – inclusive o ser – é reduzido a um único valor – o valor de troca. Em um mundo dominado pela especulação, nossa idéia de valores morais e estéticos – escreve o poeta e ensaísta Paul Valery – tende a se reduzir ao modelo do valor da Bolsa: flutua em um vasto mercado. Até mesmo o “valor espírito”, diz ele, não é diferente do valor “trigo” ou do valor “ouro”. Esta indiferença em relação aos valores e virtudes cardeais torna o homem incapaz de orientar suas ações. Daí a retomada das interrogações postas pelo Iluminismo: “Onde estamos?”, “Para onde vamos?” Em um ensaio – ‘Nas trevas desta época’, Wittgenstein & o mundo contemporâneo – o filósofo Jacques Bouveresse escreve que Musil constata que as virtudes que tornaram possíveis as grandes descobertas científicas são do mesmo gênero que os vícios, aos quais se atribui geralmente o sucesso dos homens de guerra, dos caçadores e dos mercadores: “Antes que os intelectuais descobrissem a volúpia dos fatos, apenas os guerreiros, os caçadores e os comerciantes, isto é, naturezas artificiais enganosas e violentas, a haviam conhecido. Na luta pela vida, não há lugar para o sentimentalismo do pensamento, apenas o desejo de suprimir o adversário da maneira mais rápida e mais eficaz; todo o mundo é positivista”. Assim, Musil vai dizer que tal espírito, continua Bouveresse, “fez triunfar, no domínio do intelecto como em todos os outros aspectos da existência, um tipo de homem cujas qualidades dominantes são a habilidade, o engano, a tenacidade, a ausência de escrúpulo e de inibição, a desconfiança em relação a qualquer espécie de idealismo, a coragem de destruir tanto quanto de empreender, a arte de esperar e tirar partido das mínimas circunstâncias”.

Mais adiante, Bouveresse escreve: “Kraus estima que a crença romântica nas virtudes do progresso científico e técnico é feita de pessoas que julgam a situação atual através de conceitos que há muito cessaram de se aplicar e que falam dela com uma linguagem completamente ultrapassada, esquecendo que um processo que se tornou completamente autônomo e cego e que se faz no essencial sem o homem e mesmo, em certos casos, contra ele, não deveria suscitar nenhuma exaltação romântica. O progresso de uma parte e a moral convencional de outra parecem ter feito hoje uma aliança ofensiva contra a natureza em geral e contra a natureza humana em particular: O progresso... inventou a moral e a máquina para expulsar da natureza e do homem a natureza, e se sente ao abrigo em uma construção do mundo cuja histeria e o conforto mantêm a consistência. O progresso celebra vitórias de Pirro sobre a natureza. O progresso faz bolsas com pele humana”. Pode-se dizer que estamos entre dois mundos. Temos o sentimento de pertencer a uma “geração de passagem”, confluência de dois rios, como escreveu Chateaubriand, na qual mergulhamos “em sua águas turvas, distanciando com pesar do velho ribeirinho onde havia nascido e nadando com esperança em direção ao desconhecido onde vão aportar as novas gerações”. O século XXI nasce sob o signo da derrota dos projetos políticos revolucionários de emancipação e de um silêncio provisório da “aposta de refundação” filosófica, espiritual, ideológica ou política, ao se ver cercado de tragédias e guerras sem que valores e virtudes se contraponham à barbárie. Como podemos ler no Rapport sur le prix de la vertu, “toda política e toda moral fundam-se, em definitivo, sobre a idéia que o homem tem do homem e de seu destino. Desde muitos séculos, a humanidade ocidental não cessou de perseguir a edificação da personalidade. Lentamente, laboriosamente, e muitas vezes dolorosamente, o valor civil, político, jurídico e metafísico do indivíduo foi criado e finalmente levado a uma espécie de absoluto que designaram as noções tornadas banais e desacreditadas de liberdade e igualdade”.

Vivemos um paradoxo: é exatamente no contexto da mundialização que virtudes e valores tendem a perder a sua universalidade. Talvez seja correta a hipótese de oposição entre mundial e universal. O pior é que a idéia da relatividade destes valores e virtudes demonstrou que não tem força para enfrentar os problemas postos hoje a todas as áreas da atividade: política, estética, sensibilidade, mentalidade, costumes etc. Em síntese, vivemos um momento que o filósofo Bernard Stiegler define como terceira revolução industrial, no qual a cultura, ou melhor “o controle da cultura tornou-se o coração do desenvolvimento mas isso ao preço de um tornar-se gregário que é também um tornar-se inculto generalizado, que só pode resultar em uma descrença e um descrédito da política”. Trata-se de reconstruir uma economia libidinal (uma filia) , conclui Stiegler, “sem a qual não há cidade, democracia, economia industrial, nem economia espiritual possíveis”.

Eis as questões: para onde vão as virtudes e os valores no mundo dominado pela tecnociência? O que é virtude hoje? Que vícios dominam a vida cultural e política?

1. O tema vida vício virtude ganha, pois, atualidade. Lemos em um dos ensaios de Valéry que a palavra virtude não se oferece mais como uma expressão espontânea do pensamento da realidade atual e que o ato de acolher ou eliminar certas palavras do nosso vocabulário pode nos revelar fenômenos da vida social.

“Uma palavra que aparece, que se impõe é, às vezes, todo um mundo de relações, toda uma esfera da atividade que se releva. Uma palavra que perde seu vigor, ou seu império, sua freqüência ou espontaneidade, uma palavra que é honrada apenas por nós, no nosso dicionário bastante reservado... como a cinza de uma idéia que cessou de ser viva, esta palavra, no seu próprio declínio, pode nos ensinar algo: o próprio desuso confere a um termo moribundo uma espécie de suprema significação”. Notamos que a palavra virtude desapareceu do nosso vocabulário e, com ela, todo um mundo de relações. Assim, por exemplo, com a retomada da palavra sabedoria – que pode esclarecer um pouco nossas existências errantes – até a passividade, entendida como acedia ou melancolia dos modernos, podemos desvendar os vícios e virtudes do nosso tempo. Mas o que se entende por vício e virtude? De maneira bem simplificada, pode-se dizer que o vício é uma disposição para o mal, assim como, em contrapartida, a virtude é uma disposição para o bem. O pensamento clássico – tomemos Aristóteles como referência – nos ensina que virtude é a “excelência” da parte irracional da alma que pode, através do exercício e do hábito, ser sensível à razão: se nos aplicamos a fazer atos de justiça, de moderação, de coragem, tornamo-nos justos, sóbrios, corajosos. Seremos chamados igualmente “virtuosos” ou “viciosos”, conclui o filósofo Léon Robin em seu ensaio A moral antiga, “conforme a qualidade habitual dos nossos atos singulares, quer nas relações com nossos semelhantes, quer na nossa atitude relativa aos nossos desejos e paixões”. Em síntese, a educação e a legislação, enquanto formam hábitos, “têm uma parte considerável na aquisição da virtude”. Especulemos, pois, sobre as razões deste esquecimento (não das virtudes teologais, mas das virtudes cardeais – isto é, Sabedoria, Liberdade, Justiça e Coragem – e mais a Amizade e o Prazer). É certo que o uso abstrato de algumas destas palavras em discursos oficiais, “instrumentos de uma guerra civil permanente”, só fez degradar o seu sentido e esvaziar o pensamento contido nelas.

2. Se usarmos ainda a metáfora marítima de Valéry para as grandes transformações, podemos dizer que navegamos em mares inteiramente novos nos quais os velhos instrumentos de navegação tornaram-se obsoletos. Que novos sentidos dar às velhas virtudes? Existe hoje uma assimetria, um descompasso, entre as condições de produção material e técnica e seus equivalentes em valores espirituais e mentais – entendendo por valores espirituais o trabalho do espírito e sua “potência de transformação”. Isso quer dizer que, em determinados momentos da história, pode haver acontecimentos sem conteúdo, pesadelo de uma realidade que não constrói vínculos com o pensamento, com os valores e as virtudes. Ora, sabemos que é o conteúdo sem acontecimento imediato que serve de ponto de partida do pensamento para anunciar a possibilidade do novo. Mas que fique claro: da mesma maneira que acontecimentos sem conceitos são ações cegas, assim também pensamentos sem matéria são vazios. Mas é o pensamento que estabelece relação entre as coisas. O vínculo entre virtude e razão pode ser definido, pois, como trabalho do pensamento e da sensibilidade ética. Enfim, como escreveu o filósofo Maurice Merleau- Ponty, “só resta à nossa filosofia fazer a prospecção do mundo atual”. Por fim, ao dar forma ao título deste ciclo – vida vício virtude – sem que nada separe as palavras, queremos dizer que é difícil separar vício e virtude. Deixemos a pergunta aos conferencistas: existe entre virtude e verdade, de um lado, e entre vício e erro, de outro, uma relação tão unívoca e clara quanto pensamos? Os tempos de certezas absolutas e “ideais puros” não seriam também perigosos? É certamente isso que Montesquieu quis dizer: “Quem diria! A própria virtude precisa de limites”.